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Dados indicam que “variante turbinada” do coronavírus surgiu “perto” de Mato Grosso

Apesar de ter se tornado de conhecimento público na última semana, a variante Gamma-Plus já está em circulação pelas regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil desde meados de março e sua prevalência segue crescendo entre os casos nessas duas regiões. Essas mutações da ‘variante de Manaus’ – a Gamma – trazem consigo alterações que se assemelham às variantes Alpha (britânica) e Delta (indiana), que são mais contagiosas e tratadas como motivo de preocupação pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A reportagem do Estadão Mato Grosso conversou com o virologista José Eduardo Levi, que lidera o sistema de vigilância genômica da Dasa. Foi ele quem descreveu a detecção da variante Gamma-Plus em Mato Grosso. Segundo Levi, os dados geográficos sugerem que essas mutações tenham surgido nas regiões Norte e Centro-Oeste, onde a prevalência da Gamma-Plus é maior.

“Regiões central e norte do país têm uma representatividade maior. São Paulo e Rio quase não encontramos. Então, isso sugeriu que isso está vindo dessa região”, disse.

Além dos dados do Genov, sistema de vigilância genômica liderado por Levi, a reportagem consultou dados da Fiocruz, que foi o primeiro a detectar a variante Gamma-Plus no Brasil.

Os dados da Fiocruz mostram que a ‘primeira versão’ da Gamma-Plus surgiu em março, tanto na região Norte quanto na região Centro-Oeste. Ela traz uma mutação semelhante à variante Alpha, que foi detectada pela primeira vez no Reino Unido e é até 40% mais transmissível que o coronavírus original. Ao mesmo tempo, surge na região Norte uma ‘segunda versão’, que traz mutações semelhantes à variante Delta, detectada pela primeira vez na Índia e até 60% mais contagiosa que a variante Alpha.

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Levi explica que essas alterações são naturais e fazem parte do processo evolutivo, mas no coronavírus ela tende a acontecer em pontos semelhantes, um fenômeno conhecido como ‘convergência evolutiva’.

“É uma posição que o vírus melhora, se torna mais competente no ponto de vista evolutivo”, disse. “No Sars-CoV-2 é muito intensa, o que surpreende a nós virologistas. Daí, destas 12 que a gente encontrou, 11 tem a mesma mutação que a variante Alpha e outra que a Delta”, completou, explicando que os vírus que não têm essas mutações tendem a sumir enquanto as variantes mais evoluídas se tornam predominantes.

Hoje, as duas versões da Gamma-Plus já são responsáveis por dois em cada três casos da região Norte que foram registrados no banco de dados da Fiocruz. A segunda versão da Gamma, aquela que é semelhante à Delta, é a que mais cresceu neste período. Já na região Centro-Oeste é a primeira versão da Gamma-Plus que tem crescido, mas sua frequência é bem menor. Ela chegou a responder por até 10% dos casos registrados na Fiocruz, mas o número caiu significativamente em julho. Contudo, é preciso lembrar que esses dados devem ser atualizados e o cenário pode mudar.

O surgimento das novas variantes e o aumento de sua prevalência nas regiões Centro-Oeste e Norte mostram que o Brasil precisa tratar com maior cuidado do contágio local, que segue em patamar elevado, criando mais possibilidades de surgimento de variantes.

“Não é por acaso que todas as variantes de preocupação e as variantes de interesse estão surgindo em lugares de alta incidência. Isso [a mutação] é simplesmente um processo aleatório. Onde tem mais contágio, tem mais chances de ocorrer esse fenômeno da mutação”, explica Levi.

Neste cenário, Mato Grosso vive uma situação peculiar. O estado se mantém um patamar elevado de registro de novos casos e tem incidência (casos para cada 100 mil habitantes) muito superior à média brasileira. Em MT, são 14.413 casos para cada 100 mil habitantes, enquanto a média nacional é de 9.690 casos/100 mil habitantes.

Para piorar, Mato Grosso não tem uma rede de vigilância genômica própria, o que faz com que novas mutações do coronavírus passem despercebidas.

Estadão Mato Grosso

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